quinta-feira, novembro 06, 2014

Vida Invivida...Agenda Perdida

Hoje encontrei minha agenda

A agenda de tempos idos, longos tempos idos!

Tempos idos em que sonhava...

Sonhava ser alguém importante na vida.

Vida que foi passando,

Passando, achava eu, em tempos de quem tem pressa pela vida,

Vida vagarosamente vivida,

Vivida? Hoje, discordo, o tempo voa...

Voa, e estou aqui...a agenda na mão...

E na mão, os sonhos do pretérito, escrito,

Escrito...hoje quimeras, devaneios hoje,

Hoje encontrei na minha agenda,

A agenda duma vida invivida!


Lucio Maciel, em homenagem a minha agenda perdida e achada em 06.11.2014.




sexta-feira, agosto 22, 2014

Retrovisor


Onde a máquina me leva não há nada
Horizontes e fronteiras são iguais
Se agora tudo que eu mais quero
Já ficou pra trás
Qualquer um que leva a vida nessa estrada
Só precisa de uma sombra pra chegar
A saudade vai batendo e o coração dispara
Mas de repente a velocidade chora
Não vejo a hora de voltar pra casa
A luz do teu olhar no fim do túnel
E no espelho, a minha solidão
O céu da ilusão que não se acaba
A música do vento que não para
Será que a luz do meu destino
Vai te encontrar

Vejo a manhã de sol entrando em casa
Iluminando os gritos das crianças
Os momentos mais bonitos na lembrança
Não vão se apagar
Ai quem me dera encontrar contigo agora
E esquecer as curvas dessa estrada
Eu prefiro sonhar com os rios
E lavar minh'alma
Alguém sentando à beira do caminho
Jamais entenderá o que é que eu sinto agora
Sou levado pelo movimento que tua falta faz
Havia tanta paz no teu carinho
Na despedida fez um dia lindo
Quem sabe tudo estará sorrindo
Quando eu voltar!

Raimundo Fagner e Fausto Nilo


terça-feira, agosto 05, 2014

Delectacion Morosa


Habré de levantar la vasta vida 
que aún ahora es tu espejo: 
cada mañana habré de reconstruirla. 
Desde que te alejaste, 
cuántos lugares se han tornado vanos 
y sin sentido, iguales 
a luces en el día. 
Tardes que fueron nicho de tu imagen, 
músicas en que siempre me aguardabas, 
palabras de aquel tiempo, 
yo tendré que quebrarlas con mis manos. 
¿En qué hondonada esconderé mi alma 
para que no vea tu ausencia 
que como un sol terrible, sin ocaso, 
brilla definitiva y despiadada? 
Tu ausencia me rodea 
como la cuerda a la garganta, 
el mar al que se hunde.


Leopoldo Lugones

segunda-feira, julho 14, 2014

Por Um Amor no Recife

A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo este tempo passe
Para beijar você


Paulinho da Viola











terça-feira, julho 08, 2014

Silêncio, Nostalgia...


Silêncio, nostalgia...

Hora morta, desfolhada,

sem dor, sem alegria,

pelo tempo abandonada.


Luz de Outono, fria, fria...

Hora inútil e sombria

de abandono.

Não sei se é tédio, sono,

silêncio ou nostalgia.


Interminável dia

de indizíveis cansaços,

de funda melancolia.

Sem rumo para os meus passos,

para que servem meus braços,

nesta hora fria, fria?


Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"


sábado, junho 07, 2014

Amigo


Mal nos conhecemos

Inauguramos a palavra amigo!


Amigo é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,


Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!


Amigo (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

Amigo é o contrário de inimigo!


Amigo é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado.

É a verdade partilhada, praticada.


Amigo é a solidão derrotada!


Amigo é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill

 

 

Soneto


Formoso Tejo meu, quão diferente

Te vejo e vi, me vês agora e viste:

Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,

Claro te vi eu já, tu a mim contente.

 

A ti foi-te trocando a grossa enchente

A quem teu largo campo não resiste;

A mim trocou-me a vista, em que consiste

O meu viver contente ou descontente.


Já que somos no mal participantes,

Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera

Que fôramos em tudo semelhantes!


Mas lá virá a fresca Primavera:

Tu tornarás a ser quem eras de antes,

Eu não sei se serei quem de antes era.

 

 

Francisco Rodrigues Lobo






sexta-feira, abril 11, 2014

Intertexto

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

 

Bertold Brecht

 

 

sábado, março 15, 2014

Cura Senhor

Vamos Jesus passear, na minha vida
Quero voltar aos lugares em que fiquei só
Quero voltar lá contigo, vendo que estavas comigo
Quero sentir teu amor, a me embalar



Cura Senhor, onde dói
Cura Senhor, bem aqui
Cura Senhor, onde eu não posso ir


Quando a lembrança me faz, adormecer
Sabes que a espada da dor entra eu meu ser
Tu me carregas nos braços, leva-me com teu abraço
Sinto minha alma chorar, junto de Ti


Cura Senhor, onde dói
Cura Senhor, bem aqui
Cura Senhor, onde eu não posso ir


Tantas lembranças eu quero, esquecer
Deixa um vazio em minha alma e em meu viver
Toma Senhor meu espaço, te entrego todo o cansaço
Quero acordar com tua paz a me aquecer


Cura Senhor, onde dói
Cura Senhor, bem aqui
Cura Senhor, onde eu não posso ir


Linda canção do Pe. Antonio Maria



domingo, março 02, 2014

O Sole Mio

Che bella cosa na jurnata'e'sole
N'aria serena doppo na tempesta
Pe'll'aria fresca pare gia' na festa
Che bella cosa na jurnata'e sole.


Ma n'atu sole cchiu' bello, oi ne'
'O sole mio sta nfronte a te!
'O sole o sole mio
Sta nfronte a te ... sta nfronte a te.

Quanno fa notte e o sole se ne sene,
Me vene quase na malincunia.
Sotto a fenesta toia restaria,
Quanno fa notte e o sole se ne sene.

Ma n'atu sole cchiu' bello, oi ne'
'O sole mio sta nfronte a te!
'O sole o sole mio
Sta nfronte a te ... sta nfronte a te.

Quanno fa notte e'sole se ne scenne
Me vene quase'na malincunia;
Soto a fenesta toi restarria
Quando fa notte e'o sole se ne scenne.

Ma n'atu sole cchiu' bello, oi ne'
'O sole mio sta nfronte a te!
'O sole o sole mio
Sta nfronte a te ... sta nfronte.

 

Giuseppe Anselmi



domingo, fevereiro 02, 2014

Extravío

 

Una vez me perdí en tus brazos

Y eran mis labios una fortaleza

Que anhelaba una conquista insólita.

Se enamoraron del asedio

Y avanzaron.

Tu talle era un sultán,

Tus manos la fatiha del ejército,

Tus ojos una guarida y un amigo.

Nos unimos, nos perdimos juntos,

Penetramos en el bosque de fuego.

Trazo el primer paso hacia ti

Y abres el camino...

 

Ali Ahmad Said (Adonis), tradução de María Luisa Prieto



Flor do Mar

És da origem do mar, vens do secreto, 

Do estranho mar espumaroso e frio 

Que põe rede de sonhos ao navio 

E o deixa balouçar, na vaga, inquieto. 

Possuis do mar o deslumbrante afeto, 

As dormências nervosas e o sombrio 

E torvo aspecto aterrador, bravio 

Das ondas no atro e proceloso aspecto. 

Num fundo ideal de púrpuras e rosas 

Surges das águas mucilaginosas 

Como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas, 

Auroras, virgens músicas marinhas, 

Acres aromas de algas e sargaços...

 

 

Cruz e Souza

 

domingo, janeiro 05, 2014

A Esperança


A Esperança não murcha, ela não cansa,

Também como ela não sucumbe a Crença.

Vão-se sonhos nas asas da Descrença,

Voltam sonhos nas asas da Esperança.


Muita gente infeliz assim não pensa;

No entanto o mundo é uma ilusão completa,

E não é a Esperança por sentença

Este laço que ao mundo nos manieta?


Mocidade, portanto, ergue o teu grito,

Sirva-te a Crença de fanal bendito,

Salve-te a glória no futuro - avança!


E eu, que vivo atrelado ao desalento,

Também espero o fim do meu tormento,

Na voz da Morte a me bradar; descansa!



Augusto dos Anjos

 

 

A Prisão do Orgulho


Choro, metido na masmorra

Do meu nome.

Dia após dia, levanto, sem descanso,

Este muro à minha volta;

E à medida que se ergue no céu,

Esconde-se em negra sombra

O meu ser verdadeiro.


Este belo muro

É o meu orgulho,

Que eu retoco com cal e areia

Para evitar a mais leve fenda.


E com este cuidado todo,

Perco de vista

O meu ser verdadeiro.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

Tradução de Manuel Simões