quinta-feira, dezembro 19, 2013

A Musa


Oh! ter vinte anos sem gozar de leve

A ventura de uma alma de donzela!

E sem na vida ter sentido nunca

Na suave atração de um róseo corpo

Meus olhos turvos se fechar de gozo!

Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas

Passam tantas visões sobre meu peito!

Palor de febre meu semblante cobre,

Bate meu coração com tanto fogo!

Um doce nome os lábios meus suspiram,

Um nome de mulher... e vejo lânguida 

 

No véu suave de amorosas sombras

Seminua, abatida, a mão no seio,

Perfumada visão romper a nuvem,

Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras

O alento fresco e leve como a vida

 

Passar delicioso... Que delírios!

Acordo palpitante... inda a procuro;

Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas

Banham meus olhos, e suspiro e gemo...

Imploro uma ilusão... tudo é silêncio!

Só o leito deserto, a sala muda!

Amorosa visão, mulher dos sonhos,

Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!

Nunca virás iluminar meu peito

Com um raio de luz desses teus olhos?



Poema publicado em http://www.cervantesvirtual.com

Poema



Junto do leito meus poetas dormem

O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron-

Na mesa confundidos. Junto deles

Meu velho candeeiro se espreguiça

E parece pedir a formatura.

Ó meu amigo, ó velador noturno,

Tu não me abandonaste nas vigílias,

Quer eu perdesse a noite sobre os livros,

Quer, sentado no leito, pensativo

Relesse as minhas cartas de namoro!

Quero-te muito bem, ó meu comparsa

Nas doudas cenas de meu drama obscuro!

E n'um dia de spleen, vindo a pachorra,

Hei de evocar-te n'um poema heróico

Na rima de Camões e de Ariosto

Como padrão às lâmpadas futuras!

 

Miguel de Cervantes

domingo, dezembro 08, 2013

Eu Ontem Ouvi-te


Andava a luz

Do teu olhar,

Que me seduz

A divagar

Em torno a mim.

E então pedi-te,

Não que me olhasses,

Mas que afastasses,

Um poucochinho,

Do meu caminho,

Um tal fulgor

De medo, amor,

Que me cegasse,

Me deslumbrasse,

Fulgor assim.




Ângelo de Lima



O Amor


O AMOR, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...


Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!


Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...



Fernando Pessoa

sábado, novembro 30, 2013

O Teu Olhar Nú

O céu estava nu,

A lua ofuscava...

Estava tão nu,

Mesmo assim

Brilhava.

E vendo-me nua,

Teus olhos

Ficam nus também...

Teu olhar

Mais lento,

Não vê o ...além

Naquele momento...

Por incrível que pareça,

Quando nua,

Sou mais pura...

Vou ao teu encontro

Despida de critérios,

Libertando

Os mistérios...

Porque...

Nua... sou só Tua !


Mary Araújo, 2013/11/29 in http://www.facebook.com/groups/461239123907031/



sábado, novembro 16, 2013

Homenagem a Elvis Presley

Uma das mais belas canções, interpretada pelo Elvis Presley:

My Way!

Pura Emoção

Alma!

Os Bons Cantores

As Belas Canções

Não Morrem!

Pra Sempre!

Eternamente Elvis!



Herança de morte


Lírios em mãos de carrascos

Pombal à porta de ladrões

Filho de mulher à boca do lixo

Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas

Assim construímos África nos cursos de herança e morte

Quando a crosta romper os beiços da terra

O vento ditará a sentença aos deserdados

Um feixe de luz constante na paginação da história

Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança

 

 

Amélia Dalomba



 

My Way

E agora o fim está próximo

Então eu encaro o desafio final

Meu amigo, Eu vou falar claro

Eu irei expor meu caso do qual tenho certeza


Eu vivi uma vida que foi cheia

Eu viajei por cada e todas as rodovias

E mais, muito mais que isso

Eu fiz do meu jeito


Arrependimetos, eu tive alguns

Mas então, de novo, tão poucos para mencionar

Eu fiz, o que eu tinha que fazer

E eu vi tudo, sem exceção


Eu planejei cada caminho do mapa

Cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho

Oh, mais, muito mais que isso

Eu fiz do meu jeito


Sim, teve horas, que eu tinha certeza

Quando eu mordi mais que eu podia mastigar

Mas, entretanto, quando havia dúvidas

Eu engolia e cuspia fora


Eu encarei tudo e continuei de pé

E fiz do meu jeito


Eu amei, eu ri e chorei

Tive minhas falhas, minha parte de derrotas

E agora como as lágrimas descem

Eu acho tudo tão divertido


Em pensar que eu fiz tudo

E talvez eu diga, não de uma maneira tímida

Oh não, não, não eu

Eu fiz do meu jeito


E pra que serve um homem, o que ele tem ?

Se não ele mesmo, então ele não tem nada

Para dizer as coisas que ele sente de verdade

E não as palavras de alguém que se ajoelha


Os registros mostram, eu recebi as pancadas

E fiz do meu jeito.


 

 

 

 

 

 

 

Composição de Claude François / Jacques Revaux / Paul Anka interpretada por Frank Sinatra.

 

 

sexta-feira, novembro 15, 2013

Confissão


Estarei na praça pública

Sem fantasias estranhas

Para dizer que vivo, sob penas
De castigos em não me
Aceitar. Não me acudirei

Quero que vossos olhares atinjam

Com pedras o meu masturbante silêncio

E que preguem em meu corpo cartazes

Com dizeres que degredem

O meu ser.

Caros amigos, meus pés tenho-os rede

Em mares amantizados de luas e barcos que me têm
Inumado em luzes mansas de ouro

À seguir o que me é

Olvidado, por não

Me dar a

Viver...



Adriano Botelho de Vasconcelos


Canto e Cantarei


Num canto de qualquer canto

Levo minha vida a cantar

E com o canto até me espanto

No meu canto o quero amar

Cantarei desta maneira

Num canto qualquer

Canto sempre na brincadeira

Se ao lado duma bela mulher

E ela se não gostar

Só tem uma coisa a fazer

Mandar-me para outro lado cantar

Onde eu possa ter mais prazer

Mas não acredito que seja assim

Quando lhe canto ao ouvido

Ela gosta mais de mim

Se no canto toma sentido

Há formas de dizer

O que nos vai no coração

E a cantar eu quero crer

Que a chamo à atenção

E ela fica ali quietinha

A aguardar o que eu canto

Seja à tarde ou à noitinha

Vejo seu olhar de espanto

É isso que eu adoro nela

E cada vez canto melhor

Para ela, mulher bela

No meu canto todo o amor


Armindo Loureiro – 15/11/2013 – 13H45





sábado, outubro 26, 2013

Oração da Meia-Noite


Na escuridão da noite, o vento derrama


Baldes de chuva no rosto da aldeia;


A pobre terra, afundada em lama,


Salpicos e repouso, descansa.


As ruas calaram-se, apenas se ouve


O crepitar do cair da chuva.


Em redor, as casas humildes


Projectam-se, aqui e ali, da escuridão.


 


Como órfãos que boa gente esqueceu


De vestir antes do soprar dos ventos frios,


As barracas de telhados nus


Agacham-se procurando abrigo.


 


Será que sonhos medonhos inquietam o seu descanso?


Será que visões abomináveis se colam em seu redor?


Erguendo os punhos no ar,


Parecem tremer e protestar.


 


Os pingos de chuva escorrem nas paredes


E com o som de choro enchem os ouvidos,


Os telhados encharcados balançam, soltos.


A pequena aldeia cobre-se de lágrimas.


 


Nem uma estrela penetra a escuridão,


Densa, suspensa sobre nós,


Uma janela apenas revela uma centelha:


Um judeu acordou para orar à meia-noite


 


Chaim Nachman Bialik.

A Espera de Um Amigo


Gansos e peixes informaram de


tua ausência


O galo e o milho desperdiçam-se


a este tempo


Tranquei-me a casa, uma gaiola


sob a lua


Caem fios de seda e à cortina


se diluem


Tão perto a fonte, vem das


pedras seu rumor


mas longe o rio, soam às margens


suas ondas


Só em viagem, vem-me o outono,


chega, acerca-se


e este poema é o que me resta,


cada verso.


 

Poema chinês, autor não conhecido, publicado em http://www.unesp.br/aci_ses/jornalunesp/acervo/270/poesia-chinesa-para-o-brasil-ler