domingo, setembro 02, 2012

A Mulher


A mulher sem amor é como o inverno,


Como a luz das antélias no deserto,


Como espinheiro de isoladas fragas,


Como das ondas o caminho incerto.


 

A mulher sem amor é mancenilha


Das ermas plagas sobre o chão crescida,


Basta-lhe à sombra repousar um’hora


Que seu veneno nos corrompe a vida.



De eivado seio no profundo abismo


Paixões repousam num sudário eterno...


Não há canto nem flor, não há perfumes,


A mulher sem amor é como o inverno.


 

Su’alma é um alaúde desmontado


Onde embalde o cantor procura um hino;


Flor sem aromas, sensitiva morta,


Batel nas ondas a vagar sem tino.

 


Mas, se um raio do sol tremendo deixa


Do céu nublado a condensada treva,


A mulher amorosa é mais que um anjo,


É um sopro de Deus que tudo eleva!

 


Como o árabe ardente e sequioso


Que a tenda deixa pela noite escura


E vai no seio de orvalhado lírio


Lamber a medo a divinal frescura,

 


O poeta a venera no silêncio,


Bebe o pranto celeste que ela chora,


Ouve-lhe os cantos, lhe perfuma a vida...


- A mulher amorosa é como a aurora.


 


Fagundes Varella, S. Paulo - 1861.