quarta-feira, outubro 24, 2012

Em Viagem


A vida nas cidades me enfastia,


Enoja-me o tropel das multidões,


O sopro do egoísmo e do interesse


Mata-me n’alma a flor das ilusões.


Mata-me n’alma a flor das ilusões


Tanta mentira, tão fingido rir,


E cheio e farto de tristeza e tédio


Rejeito as glórias de falaz porvir!

Rejeito as glórias de falaz porvir,


Galas e festas, o prazer talvez,


E busco altivo as solidões profundas


Que dormem quedas do Senhor aos pés.


Que dormem quedas do Senhor aos pés,


Ao doce brilho dos clarões astrais,


Ricas de gozos que não tem o mundo,


Pródigas sempre de beleza e paz!



Fagundes Varella

domingo, setembro 30, 2012

Triste Fado

Queria escrever um poema ao

Triste fado e reduzir os sentimentos

Melancólicos do meu peito entristecido.

Instiguei a inspiração,

Forcei a expiração:

O poema não veio,

A tristeza ficou,

O Amor

Não é o mesmo;

E o que me resta, meu Deus!

Pontes quebradas,

Apenas um vazio,

Noite sem luz,

Buraco escuro

No meu coração.

 

autor, Lucio Maciel, escrito em 29/09/2012.

domingo, setembro 02, 2012

A Mulher


A mulher sem amor é como o inverno,


Como a luz das antélias no deserto,


Como espinheiro de isoladas fragas,


Como das ondas o caminho incerto.


 

A mulher sem amor é mancenilha


Das ermas plagas sobre o chão crescida,


Basta-lhe à sombra repousar um’hora


Que seu veneno nos corrompe a vida.



De eivado seio no profundo abismo


Paixões repousam num sudário eterno...


Não há canto nem flor, não há perfumes,


A mulher sem amor é como o inverno.


 

Su’alma é um alaúde desmontado


Onde embalde o cantor procura um hino;


Flor sem aromas, sensitiva morta,


Batel nas ondas a vagar sem tino.

 


Mas, se um raio do sol tremendo deixa


Do céu nublado a condensada treva,


A mulher amorosa é mais que um anjo,


É um sopro de Deus que tudo eleva!

 


Como o árabe ardente e sequioso


Que a tenda deixa pela noite escura


E vai no seio de orvalhado lírio


Lamber a medo a divinal frescura,

 


O poeta a venera no silêncio,


Bebe o pranto celeste que ela chora,


Ouve-lhe os cantos, lhe perfuma a vida...


- A mulher amorosa é como a aurora.


 


Fagundes Varella, S. Paulo - 1861.

sábado, agosto 04, 2012

Soneto

Eu passava na vida errante e vago

Como o nauta perdido em noite escura,

Mas tu te ergueste peregrina e pura

Como o cisne inspirado em manso lago.

Beijava a onda num soluço mago

Das moles plumas a brilhante alvura,

E a voz ungida de eternal doçura

Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo

A teus pés afoguei a mocidade

Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas ai! cedo fugiste!... da soidade,

Hoje te imploro desse amor tão fundo

Uma idéia, uma queixa, uma saudade!

Fagundes Varella


sábado, junho 09, 2012

Homenagem a Bertolt Brecht

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.



quarta-feira, maio 16, 2012

A Foto Bela

Disse o Poeta, com P maiúsculo

Que precisamos medir o valor

Do belo pela inveja do tempo...

Não vês o tempo,


Bela que posa para foto?

Esse é o seu tempo,

O meu tempo, por isso irei curtir,

A bela na foto,

A foto da bela,

O tempo que não passa,

Na foto que para,

Na temporalidade eternizada,

Bela!


Autor: Lucio Maciel

domingo, março 25, 2012

Por Que Mentias?

Por que mentias leviana e bela?

Se minha face pálida sentias

Queimada pela febre, e minha vida

Tu vias desmaiar, por que mentias?


Acordei da ilusão, a sós morrendo

Sinto na mocidade as agonias.

Por tua causa desespero e morro…

Leviana sem dó, por que mentias?


Sabe Deus se te amei! Sabem as noites

Essa dor que alentei, que tu nutrias!

Sabe esse pobre coração que treme

Que a esperança perdeu por que mentias!


Vê minha palidez- a febre lenta

Esse fogo das pálpebras sombrias…

Pousa a mão no meu peito!

Eu morro! Eu morro! Leviana sem dó, por que mentias?


Álvares de Azevedo



sábado, março 17, 2012

Um Dia a Menos

Desperta, fique de pé

Pise no chão batido, oriente-se

Caminhe, conte os passos

Sacode os sonhos da cabeça

Lave o cenário do teu semblante

Despeje na privada os pesadelos de outrora

Escove as doces palavras da boca e cuspa-as

Aqueça o frio dos pés

Troque de alma, coloque a anterior de molho

Ingere uma dose de cafeína

Vá buscar o jornal da escrivaninha

Recepcione a saudação: um dia a menos


Fabiana Mira, poema publicado no facebook.


domingo, fevereiro 26, 2012

Pra Sempre

Se morrer antes de ti,

Vou ter que te dizer o quanto te amei

Vais ter que ouvir as palavras que nunca te quis falar,

Que me dói amar-te assim, que estás em mim,

Que ficaste na minha pele,


Que te levarei um dia para a eternidade. 

Gostava de te dizer

Mas sei que não queres ouvir-me,

Vou esperar a hora certa,

Vou deixar-te na minha memória,

Ficarei ancorada no teu sonho de não me amares,

Nessa tua vontade inglória de não me ouvires...

Deixa-me dizer-te que te vou amar... até ao fim.

Onde fica o fim?

O fim de te amar...não tem fim.



 

Jacinta Marranita.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Elegia 6


Irrevelada angústia da última hora

Tantas frases de amor não foram ditas,

E silenciosamente fostes embora,

Para as grandes distâncias infinitas.


 

Pássaro ou anjo que distante mora,

Inquietas asas pelo céu agitas,

Voltas e pousas suavemente agora

Dentro das minhas solidões aflitas.


 

Voltas, e eu fico em dúvidas se pousas,

Tal a ternura com que vens e a calma,

Tão leve como o espírito das coisas.


 

Chegas, após vencer longas caminhos,

Com a pureza que vive só na alma

Das rosas virgens e dos passarinhos.



Mauro Mota, Elegias (1952)


segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Amar como o Pequeno Príncipe

Se alguém ama uma flor do qual só existe uma espécie em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a comtempla.

 

Saint-Exupery.
















Por Lucio Maciel do Livro "O Pequeno Príncipe" de Saint-Exupery.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Escuro

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo

Eu acordei com medo e procurei no escuro

Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança

Do tempo que eu era criança


E o medo era motivo de choro curvas


Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo mas não chorei

Nem reclamei abrigo

 

Do escuro eu via um infinito sem presente


Passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo

Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu


Ou está perdendo alguma coisa


Morna e ingênua

Que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio mas também bonito

Porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu


Há minutos atrás...



Um poema de K. Stenio in http://poeticas.wordpress.com/2011/09/29/escuro/.