sexta-feira, outubro 08, 2010

O Poeta












Derramai prantos meus!

Dai-me mais prantos, meu Deus!

Eu quero chorar aqui...

Em que sonhos de ebriedade

No arrebol da mocidade

Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?

Ventura, por que passaste

Degenerando em saudade?

Do estio secou-se a fonte,

Só ficou na minha fronte

A febre da mocidade.

Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos,
 

Romeu

CG-Women-Portraits-22

Ai! quando de noite, sozinha à janela

Co'a face na mão te vejo ao luar,

Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?

A noite vai bela,

E a vista desmaia

Ao longe na praia

Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,

Como água da chuva cheiroso jasmim?

Na cisma que anjinho te conta segredos?

Que pálidos medos?

Suave morena,

Acaso tens pena

De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes

A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?

E a noite, que inspira no seio dos entes

Os sonhos ardentes,

Não diz-te que a voz

Que fala-te a sós

Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!

Amemos, vivamos, que amor é sonhar!

Um beijo, donzela! Não ouves? no céu

A brisa gemeu...

As vagas murmuraram...

As folhas sussurram:

Amar!


Álvares Azevedo, Lira dos Vinte Anos,