quarta-feira, dezembro 08, 2010

Se Se Morre de Amor



Se se morre de amor! – Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende

De ruidoso sarau entre os festejos;

Quando luzes, calor, orquestra e flores

Assomos de prazer nos raiam n’alma,

Que embelezada e solta em tal ambiente

No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabelos,

Um quê mal definido, acaso podem

Num engano d’amor arrebentar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delírio

Devaneio, ilusão, que se esvaece

Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes ao morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,

D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

Amor é vida; é ter constantemente

Alma, sentidos, coração – abertos

Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compreender o infinito, a imensidade

E a natureza e Deus; gostar dos campos,

D’aves, flores,murmúrios solitários;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E à branda festa, ao riso da nossa alma

fontes de pranto intercalar sem custo;

Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o misérrimo dos entes;

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, é não saber, não ter coragem

Pra dizer que o amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses tesouros

Inesgotáveis d’lusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,

Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,

Segui-la, sem poder fitar seus olhos,

Amá-la, sem ousar dizer que amamos,

E, temendo roçar os seus vestidos,

Arder por afogá-la em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!



Gonçalves Dias, Poema integrante da série Novos Cantos,

 

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Uma História


A brisa dizia à rosa:

- "Dá, formosa,

Dá-me, linda, o teu amor;

Deixa eu dormir no teu seio

Sem receio,

Sem receio minha flor!

Da tarde virei da selva

Sobre a relva

Os meus suspiros te dar;

E de noite na corrente

Mansamente

Mansamente te embalar!" -

E a rosa dizia à brisa:

- "Não precisa

Meu seio dos beijos teus;

Não te adoro... és inconstante...

Outro amante,

Outro amante aos sonhos meus!

Tu passas de noite e dia

Sem poesia

A repetir-me os teus ais;

Não te adoro... quero o Norte

Que é mais forte

Que é mais forte e eu amo mais!" -

No outro dia a pobre rosa

Tão vaidosa

No hastil se debruçou;

Pobre dela! - Teve a morte

Porque o Norte

Porque o Norte a desfolhou!...


Cassimiro de Abreu, Novembro de 1858

domingo, novembro 14, 2010

Tempos Idos

Visualização

Não enterres, coveiro, o meu Passado,

Tem pena dessas cinzas que ficaram;

Eu vivo dessas crenças que passaram,

e quero sempre tê-las ao meu lado!


Não, não quero o meu sonho sepultado

No cemitério da Desilusão,

Que não se enterra assim sem compaixão

Os escombros benditos de um Passado!


Ai! Não me arranques d'alma este conforto!

- Quero abraçar o meu passado morto,

- Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!


Deixa ao menos que eu suba à Eternidade

Velado pelo círio da Saudade,

Ao dobre funeral dos tempos idos!



Augusto dos Anjos 

sexta-feira, outubro 08, 2010

O Poeta












Derramai prantos meus!

Dai-me mais prantos, meu Deus!

Eu quero chorar aqui...

Em que sonhos de ebriedade

No arrebol da mocidade

Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?

Ventura, por que passaste

Degenerando em saudade?

Do estio secou-se a fonte,

Só ficou na minha fronte

A febre da mocidade.

Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos,
 

Romeu

CG-Women-Portraits-22

Ai! quando de noite, sozinha à janela

Co'a face na mão te vejo ao luar,

Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?

A noite vai bela,

E a vista desmaia

Ao longe na praia

Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,

Como água da chuva cheiroso jasmim?

Na cisma que anjinho te conta segredos?

Que pálidos medos?

Suave morena,

Acaso tens pena

De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes

A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?

E a noite, que inspira no seio dos entes

Os sonhos ardentes,

Não diz-te que a voz

Que fala-te a sós

Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!

Amemos, vivamos, que amor é sonhar!

Um beijo, donzela! Não ouves? no céu

A brisa gemeu...

As vagas murmuraram...

As folhas sussurram:

Amar!


Álvares Azevedo, Lira dos Vinte Anos,